António
Feliciano de Castilho (1800-1875), nascido em Lisboa e filho de um médico,
cegou aos seis anos devido ao sarampo. Apesar desta fatalidade, não desistiu
dos estudos que mal havia começado na "Escola de Meninos" de mestre
Eusébio, e, com o apoio dos irmãos, entre 1810 e 1815, frequenta a Real Escola
Literária do Bairro Alto, onde aprofunda os estudos de latim e retórica, e a
partir de 1816, o Mosteiro de Jesus, onde frequenta aulas de Filosofia Racional
e Moral. Concluirá com êxito o curso secundário em 1817 e ingressará na
Faculdade de Cânones de Coimbra, na qual se licenciará em 1826.
Amigos,
parece a vida de muitos de nós, com a diferença que ele viveu nos inícios do
século XIX. E a vida prodigiosa deste cego prossegue de uma forma surpreendente
para a sua época: durante a sua existência, Castilho funda e dirige revistas,
adere a academias, traduz obras clássicas, exerce a actividade de pedagogo,
intervém activamente em polémicas literárias... É de todos conhecida a polémica
que o opôs a Antero de Quental. Não querendo entrar aqui nos motivos que a
originaram, não posso deixar de salientar que, independentemente do seu
ultra-romantismo agradar ou não, de serem justas ou não as críticas de Antero,
fico espantado com a proeminência de Castilho. Era uma pessoa cega, meus
amigos, aquela que polemizava, que poderia ser reconhecida como o maior vulto
da Literatura nacional de então. E fico emocionado até ao reflectir sobre isto
e penso que nenhum de nós, hoje, com o braille, com os nossos computadores, com
o acesso à Internet, será capaz de lograr uma preponderância tão grande no
mundo artístico deste início de século. Ele, sem estes recursos, marcou uma
época. Se encararmos a Questão Coimbrã pelo ângulo da problemática das pessoas
com deficiência, não é o decadentismo que sobressai, sim o fantástico percurso
de um cego que, em condições de acesso à cultura verdadeiramente hostis, logrou
um êxito tão retumbante.
Por
isso, na minha introdução quero, assim, deixar aqui um tributo a Castilho,
realçando que ele foi grande num tempo onde a norma era ter vida de indigente,
fazendo notar que muitos cegos, hoje, são culturalmente indigentes quando
poderiam ser grandes.
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